Captulo 6

Caractersticas das Entidades Organizadas

 uando surgiu o problema da Gestalt, ningum poderia prever que, no futuro, ficaria le estreitamente
relacionado com o conceito da autodistribuio dinmica, e os fenmenos da organizao sensorial no 
passaram a ocupar de pronto a posio central que ora ocupam. O verdadeiro ponto de partida foi a 
observao de que os campos sensoriais apresentam caractersticas que so genricamente diferentes das 
sensaes da teoria tradicional. Foi Christian von Ehrenfels que, precedido por uma observao de Ernst 
Mach, chamou a ateno dos psiclogos para o fato de que talvez os mais importantes dados qualitativos dos 
campos sensoriais tinham sido inteiramente desprezados pela anlise costumeira. 
Ao passo que se supe que a sensao ocupe seu lugar no campo independentemente, isto , determinada 
apenas pelo estmulo local, o que h de curioso nas qualidades que Ehrenfels introduziu na Psicologia 
cientfica  sua relao com conjuntos de estmulos. Coisa alguma que lhes seja semelhante jamais  
ocasionada por estmulos estritamente locais per se; ao contrrio, a conjuno de vrios estmulos  a 
condio dsses efeitos especficos em um campo sensorial. 
Como exemplo, podemos apresentar um copo de gua em que tenha sido dissolvido sabo. A aparncia de tal 
liquido em alemo  chamado trbe que, em ingls, significa algo como dim (escuro) ou turbid 
(turvo). No entanto, se isolarmos um pequeno ponto da situao visual, olhando atravs de um pequeno 
orifcio em um anteparo, o conjunto ficar repleto de certo matiz de cinzento (que poder ter uma colorao 
azulada ou avermelhada); a qualidade de escuro ou turvo desaparecer. Esta caracterstica ocorre apenas 
como propriedade de uma 
rea mais ampla; depende de algo mais que estmulo local. O mesmo acontece com o tom escuro ou indistino 
que aparece como uma qualidade das coisas vistas em um canto escuro. Tambm a nenhuma impresso local, 
examinada separadamente, apresenta indistino, mas algumas reas extensas apresentam. A claridade e a 
nitidez como atributos de um campo tm o mesmo carter transiocal. Tambm podemos mencionar a 
caracterstica tactil de uma superfcie que  chamada spera (em alemo rauh). No h o carter de 
aspereza em uma experincia puramente local do tacto. 
As qualidades peculiares de Ehrenfels ocorrem em extenso temporal, da mesma maneira que no espao. A 
palavra alem rauh, por exemplo,  usada to prontamente com referncia a certos fenmenos auditivos 
quanto para superfcies speras no campo do tacto. Quando ouvimos pancadas bastante rpidas ou o R 
da fala humana, experimentamos essa caracterstica auditiva. Naturalmente, como isto depende de pancadas, 
deve desaparecer, e desaparece, quando o estmulo  encurtado abaixo de certo limite. Expresses como 
homogneo e contnuo tambm se referem, naturalmente, tanto a atributos de reas estendidos no espao 
como de perodos de tempo. 
De um ponto de vista funcional, estas observaes no so to surpreendentes quanto se mostraram por 
ocasio da descoberta de Ehrenfels. No precisaremos considerar suas qualidades para saber que a anlise em 
uma forma extrema tornar, mais cedo ou mais tarde, impossvel a compreenso de certos fatos: os processos 
que constituem a base de nossa experincia de uma cr so, provvelmente, reaes qumicas em que so 
formadas certas molculas e destrudas outras. Ora, o qumico pode analisar tais reaes, mas existe um limite 
natural a sse processo, porque deve ser includo pelo menos um espcime, o intacto de cada tomo ou 
molcula que toma parte em uma determinada reao e tambm o fenmeno dinmico total que participa da 
interao. Alm dsse limite, o conceito esta reao especfica perde sua significao, partjcularmente na 
teoria psicofsica, onde as cres esto relacionadas com reaes. Somos, portanto, compelidos a reconhecer a 
ocorrncia de realidades dinmicas um tanto amplas, que seriam destruidas se a anlise fsse muito longe. Se 
assim  na Qumica, no pode surpreender- nos o mesmo fato, quando o enfrentamos em um campo sensorial. 
As qualidades de Ehrenfels, que correspondem a fenmenos dinmicos mais amplos que a cr, originam-se na 
mesma ocasio em que a cr se origina. Estamos presumindo que aquelas qualidades e os atributos sensoriais 
comuns so, do ponto de vista fisiolgico, aspectos do mesmo processo-em-distribuio total. Teria 
constitudo uma faanha sbre-humana se Ehrenfels tivesse chegado at o ponto de dar, dsse modo, s suas 
novas caractersticas a mesma posio que tm as qualidades sensoriais comuns. Para le, suas qualidades 
representavam experincias que eram acrescentadas s sensaes, quando estas surgiram. Na escola de Graz 
(von Meinong, Witasek, Benussi), discutiu-se 
103 
102 
muito, na ocasio, o fuadierte Inhalte, concepo que implica no apenas prioridade das sensaes em comparao com 
as caractersticas de Ehrenfels, como tambm uma produo destas ltimas por meio de processos intelectuais. 
Evidentemente, mesmo aqules que se mostravam particularmente interessados pelo assunto tiveram, de pronto, enorme 
dificuldade em reconhecer desde logo suas consequncias radicais para a teoria psicolgica. 
Em sua maior parte, as qualidades de Ehrenfels so caractersticas de entidades isoladas no sentido em que esta expresso 
foi usada no captulo anterior. Simples, complicado, regular, harmonioso so palavras que invarivelmente se 
referem a produtos de organizao. Quando chamamos algo de simtrico, ste algo , certamente, um objeto isolado. Do 
mesmo modo, esguio, redondo, angular, desajeitado, gracioso so propriedades especficas de coisas ou 
fenmenos prolongados. Dstes exemplos h apenas um passo para qualidades de forma mais particulares, como as que 
so dadas na aparncia caracterstica de um crculo, um tringulo, uma pra, um carvalho, etc. Tambm estas qualidades s 
ocorrem como atributos de entidades especficas. Em alemo, a palavra Gestalt  usada muitas vzes como sinnimo de 
forma ou feitio. Ehrenfels, achando o caso da forma a mais importante e evidente entre as suas qualidades, empregou o 
nome Gestaltqualitten para tdas elas. Em conseqncia disso, esto includas no apenas as formas especficas de 
objetos e figuras, mas tambm qualidades tais como regular. Alm disso, repito, h tambm qualidades de Ehrenfels 
temporais. A definio geral desta expresso, aplica-se s propriedades especficas de melodia, por exemplo, a seu carter 
maior ou menor, da mesma maneira que se aplica  angulosidade de uma figura. Movimentos como fatos visuais tm 
Gestaltqualitten que so temporais e espaciais ao mesmo tempo. Podem servir de exemplo formas de dana e 
movimentos caractersticos de animais, tais como pular e rastejar. 
Neste ponto, cabe uma observao geral acrca da terminologia. Para Ehrenfels as novas caractersticas eram em si mesmas 
objetos de grande intersse. le no reconheceu a significao muito mais geral da organizao, ou o fato de que, pela maior 
parte, so os produtos de organizao que apresentam os melhores exemplos de Gestaltqulitdten como seus atributos. 
Ora, na lngua alem  pelo menos desde o tempo de Goethe  o substantivo Gestalt tem dois significados: alm do 
sentido de forma ou feitio como atributo das coisas, tem a significao de uma unidade concreta per se, que tem, ou pode 
ter, uma forma como uma de suas caractersticas. Do tempo de Ehrenfels para c, a importncia atribuda s qualidades por 
Ehrenfels passou aos fatos de organizao e, assim, ao problema das entidades especficas nos campos sensoriais. Em 
conseqncia, quando nos referimos  Psicologia da Gestalt, a significao que atribumos  palavra Gestalt  a que se refere 
a um objeto especfico e  organizao, e o problema dos atri104 
butos da Gestalt tornou-se um problema especial entre os muitos de que os psiclogos da escola tm de tratar. A esperana 
dsses psiclogos  que os conceitos funcionais que les aplicam  organizao sensorial tambm sejam teis no tratamento 
terico das qualidades de Ehrenfels. Tornou-se, assim, evidente que a adoo de um tipo particular de processo constitui, 
presentemente, a principal preocupao da Psicologia da Gestalt. Os estudiosos que desejem familiarizar-se com essa 
forma de psicologia tero de concentrar a ateno em fenmenos ampliados que se distribuem e se regulam como conjuntos 
funcionais.  fcil deduzir que tais processos tero certas caractersticas que smente possuiro como estados ampliados e 
que o mesmo prevalece para suas partes. Tais caractersticas, presume-se, so correspondentes fisiolgicos das qualidades 
de Ehrenfels. 
Partindo-se dste ponto de vista, mesmo o isolamento de entidades especficas nos campos sensariais aparece como um 
exemplo nico, embora certamente de grande importncia, entre as vrias questes que constituem o assunto objetivo da 
Psicologia da Gestalt. De fato, o conceito Gestalt pode ser aplicado muito alm da experincia sensorial. 
De acrdo com a definio funcional mais geral da expresso, os processos de aprendizagem, de reestruturao, de esfro, 
de atitude emocional, de raciocnio, atuao, etc. podem ter de ser includos. Isto torna ainda mais claro que Gestalt no 
sentido de forma j no  o centro da ateno da Psicologia da Qestalt. Realmente, para alguns dos fatos pelos quais os 
psiclogos se mostram interessados, a expresso Gestalt com significao de forma no se aplica de modo algum. 
Deixando-se de lado a Psicologia, os progressos que ocorrem na ontogenia e em certas outras partes da Biologia 
provvelmente tero de ser tratados do mesmo modo.  importante compreender-se que esta perspectiva ampla no 
implica impreciso. Se os conceitos da teoria mecanicista prevaleceram por tanto tempo sem um escrutnio adequado, no 
se pode objetar contra uma discusso dos princpios da distribuio e regulao dinmicas em geral. De modo algum se 
acrdita, porm, que qualquer um daqueles problemas mais amplos possa realmente ser resolvido pela mera aplicao de 
princpios gerais. Ao contrrio, sempre que os princpios parecem aplicveis, est apenas comeando a tarefa concreta de 
pesquisa, pois  necessrio conhecer precisamente de que maneira os processos se distribuem e se regulam em todos os 
exemplos especfficos7 
Se mesmo no tratamento de campos sensoriais continua a ser tarefa para o futuro uma soluo real de nossos problemas, 
pelo menos os primeiros passos podem ser dados sem demora. A sse respeito, como alis em qualquer outro caso, 
devemos, antes de mais nada, 
7 Kahler, Gestaiprobleme und Anfnge elner Gestalttheorle. Jaliresber. . d. ges. Phy. herausg. von Rona, 1924. 
105 
saber exatamente quais so as questes essenciais. Ora, ningum deixa de perceber, por exemplo, que a 
profundidade visual, tal como  determinada pelas condies das duas retinas, oferece um problema 
fascinante. Parece muito mais difcil, porm, perceber o verdadeiro problema no caso da forma como 
caracterstica de entidades isoladas. A razo  a mesma que a do caso dessas prprias entidades visuais (cf. 
pg. 95) Repetindo: quando consideramos o estmulo retiniano, nosso raciocnio atua com o conceito de 
imagens, com a implicao de que uma imagem  uma unidade particular que tem uma forma, no sentido em que 
objetos percebidos tm formas. Muitos diriam, assim, que a forma de um lpis ou de um crculo  projetada 
sbre a retina. Sem dvida alguma, quando falamos sem cautela, essas palavras contm o rro de experincia. 
No mosaico de todos os estmulos retinianos, as reas particulares que correspondem ao lpis ou ao crculo 
no so de modo algum destacadas e unificadas. Em conseqncia, as formas em questo tambm no so 
funcionalmente percebidas. Nossa mente pode escolher e combinar quaisquer pontos retinianos quantos 
quisermos; dste modo, tdas as formas possveis, inclusive as do lpis e do crculo, podem imaginativamente 
ser colocadas na retina. No que diz respeito ao estmulo retiniano, porm, tais processos so inteiramente 
arbitrrios. Funcionalmente, as formas do lpis e do crculo ocorrem to pouco na projeo retiniana quanto as 
dos anjos e das esfinges. 
Alguns exemplos serviro para esclarecer o conceito de forma como atributo visual. Ocasionalmente, vemos 
um mapa destinado a representar um pas de forma bem conhecida. J vimos muitas vzes a forma de tal pas 
em outros mapas. No entanto, o mapa que temos agora diante de ns apresenta regies com formatos 
inteiramente desconhecidos. De sbito, porm, uma radical transformao ocorre em nosso campo visual: as 
formas desconhecidas desaparecem e a forma bem conhecida do pas em questo aparece com perfeita clareza. 
Bons exemplos para esta observao so certas cartas de navegao, nos quais os mares assumem a aparncia 
que tm as terras nos mapas comuns. Ora, o contrno da terra  o mesmo em uma carta martima que  em um 
mapa comum, isto , a linha geomtrica que separa a terra da gua  normalmente projetada sbre a retina.8 
No obstante, quando olhamos um mapa dsse tipo, do Mediterrneo, por exemplo, podemos deixar 
inteiramente de ver a Itlia. Em vez disso, vemos uma figura estranha, representando a rea do Adritico, etc., 
que  nova para ns, mas que, nas circunstncias, parece ter forma. Assim, ter forma  uma particularidade 
que distingue certas zonas do campo visual de outras que no tm forma nesse sentido. Em nosso exemplo, 
quando o Mediterrneo tem forma, a zona correspondente  Itlia  destituda de forma, e vice-versa. Esta 
afirmativa parecer menos surpreendente se 
8 Falando-Se a rigor, esta expressO acarreta de nvo o rro da experincia. No mosaico dos estmulos retinianos no h, naturalmente, uma linha 
como entidade especifica, unificada e isolada. 
106 
nos lembrarmos que os estmulos retinianos constituem um mero mosaico, no qual nenhuma rea particular 
est funcionalmente isolada e delineada. Quando o sistema nervoso reage a sse mosaico e quando surge a 
organizao, podem originar-se e delinear-se vrias entidades 
circunscritas, em nosso exemplo; entre outras a pennsula da Itlia e o Mediterrneo. A no ser que 
conheamos os princpios da organizao, contudo, no podemos predizer que possibilidade se realizar 
efetivamente. Os estmulos por si mesmos no nos dizem, e a instabilidade da organizao no presente caso 
torna perfeitamente claro que les szinhos no so responsveis pela presena ou ausncia de forma em uma 
determinada rea. 
A Fig. 9, variao da Fig. 8, ou a Fig. 8 podem servir como nvo exemplo. Com um modlo constante de 
estmulos, podemos ver na Fig. 9 duas formas diferentes, ou a de uma cruz que consiste de quatro braos 
finos, ou de outra cruz que consiste dos quatro setores grandes. Enquanto a primeira forma estiver diante de 
ns, a da rea da segunda  absorvida no segundo plano, e seu formato visual se torna no existente. Quando 
a outra forma emerge, a primeira desaparece. 9 Ser observado que, em ambos os casos, as linhas obliquas so 
os limites das formas vistas de cada vez. Elas pertencem  cruz mais fina no primeiro caso e  cruz maior no 
segundo. 
Observaes minuciosas dsse tipo foram feitas pela primeira vez por Rubin, que exps suas concluses com 
grande nmero de exemplos. O fato de que, em determinada ocasio, apenas reas particulares de um campo 
tm formas, foi demonstrado conclusivamente, quando sujeitos, que tinham visto uma forma na primeira 
apresentao de tal modlo, no reconheceram sse modlo, se era vista uma segunda 
9 Em certas condies pouco comuns, ambos os objetos podem ser vistos ao mesmo tempo. 
10 VisueU wahrgenommene Figuren. Copenhague, Berlim, Londres, 1921. 
Fia. 9 
107 
apresentao da nova forma. A segunda forma no fra um fato visual, quando anteriormente a primeira fra 
percebida. Em conseqncia, a forma vista na segunda apresentao parecia inteiramente nova e estranha. 
Tambm quando  vista uma das duas cruzes da Fig. 9, no podemos ver, ao mesmo tempo, outras formas que, 
do ponto de vista do estmulo retiniano, poderiam tambm ser notadas visualmente. Assim, por exemplo, no 
vemos as formas correspondentes s Figuras 9a, 9h ou 9c. 
Na Fig. 10 so vistos dois objetos desconhecidos, atravs dos quais  traada uma linha horizontal. Se eu 
disser ao leitor que tem diante 
Fic. 10 
de si o nmero 4, le, sem dvida, ir encontr-lo. Se no estiver, porm, influenciado por preconceitos 
tericos, confessar que, a princpio, a forma de 4 no existia como fato visual e que, quando surgiu mais tarde, 
representou uma transformao de seu campo visual. 
Neste exemplo ser claramente reconhecido que a existncia de uma forma visual particular concilia-se com a 
existncia de uma unidade visual correspondente, que, quando isolada, tem a forma. Outras formas, que 
corresponderiam a uma organizao diferente na mesma rea, so inexistentes na ocasio, do ponto de vista 
visual. Assim, quando olhamos pela primeira vez para a Fig. 10, ela  vista em uma organizao particular, que 
consiste de dois objetos desconhecidos e uma linha horizontal que os atravessa. Isto significa que uma parte 
do 
 absorvida pelo objeto do lado esquerdo, uma segunda frao pelo conjunto angular do lado direito e o resto 
pela linha reta horizontal. Com a destruio do 4 como uma coisa isolada, seu formato  tambm dissolvido. 
Quando, mais cedo ou mais tarde, o sujeito realmente v o 4, as linhas correspondentes so mais ou menos 
destacadas de suas continuaes. Constitui uma regra geral o fato de existirem as formas visuais apenas 
enquanto as linhas ou zonas em questo estiverem destacadas no campo. Esta regra  confirmada por qualquer 
observao de quebra-cabeas, de objetos camuflados, etc. Do mesmo modo, urna pessoa pode convencer 
fdilmente que a existncia visual de formas parciais depende do isolamento relativo de subconjuntos 
correspondentes em entidades maiores. 
As coisas que nos rodeiam so, em sua maior parte, entidades bem estveis. Em conseqncia, suas formas 
especficas so vistas regular- mente, enquanto no houver a interferncia de condies surgidas ao acaso ou 
camuflagens intencionais.  por sse motivo que o problema da forma visual  to fcilmente deixado de lado e 
que muita gente 
109 
Fio. 9a 
FIG. 9b 
Fia. c 
ainda pode acreditar que as formas so apresentadas na projeo retiniana. No h, contudo, forma visual a que nosso 
estudo no se aplique. Em qualquer parte do campo visual que tenha forma, os processos devem ter caractersticas 
particulares responsveis pelo fato. Essas caractersticas no se apresentam em tdas as partes do campo. Se, em um dia 
claro, caminhamos por uma rua, entre casas altas, o cu fica cercado pelas superfcies mais escuras das casas. Nestas 
circunstncias, vemos como uma forma a superfcie iluminada do cu? Em via de regra, no. A rea iluminada no tem 
forma prpria. Embora seja rodeada por superfcies diferentemente coloridas, essa parte do cu permanece como um 
fundo sem forma. Os contornos continuam a ser a beira das casas; as casas tm formas, mas a parte visvel do cu no 
tem. Se quisermos ver como tendo forma uma rea circunscrita do cu, temos de olh-la atravs de um orifcio aberto em 
um pano que colocamos sbre a cabea. Se o orifcio tem a forma da letra H, a zona correspondente do cu ser vista como 
um H bem claro em um fundo escuro. 
Os estudiosos que se dedicam  Psicologia da Gestalt devem estar bem familiarizados com estas observaes e com as 
conseqncias que se seguem. Do mesmo modo que uma parte do campo visual pode ter um matiz ou ser acromtico, 
assim tambm determinada rea pode ter ou no uma forma. 
Durante algum tempo ainda ser impossvel investigar a dinmica dos processos visuais na observao fisiolgica direta. 
Presentemente, nada mais podemos fazer que tirar concluses de uma comparao de modelos retinianos com fatos visuais. 
Constatamos, ento, que Ehrenfels tinha razo ao dizer que a forma  uma caracterstica extratranslocal de certas reas. 
Parece natural deduzir que os processos subjacentes devem ter uma caracterstica tambm extratranslocal. Ora, a forma  
um atributo apenas de entidades isoladas no campo visual. Verifica-se, portanto, que, quando os processos so 
relativamente isolados de conjuntos funcionais maiores, adquirem, ao mesmo tempo, a caracterstica transiocal que  
responsvel pela forma da coisa em questo. 
Naturalmente, como a forma visual faz supor o isolamento de uma coisa visual correspondente, a existncia de uma forma 
especfica depende dos mesmos fatres do estmulo, que detreminam a organizao de coisas. Pode-se mostrar fcilmente 
que certas relaes formais dentro de dado modlo de estmulos tambm so decisivas.11 
11 Certa vez, K. Bhler tentou dar uma explicao de uma forma muito caracterstica, a da linha reta. Presumiu que todos os pontos da retina 
que formam uma linha reta esto anatmicamente ligados de um modo especial e que isso d a uma linha reta sua aparncia particular. Esta 
hiptese tem o carter de uma teoria mecanicista. No creio que possamos ter esperana de resolver o problema dsse modo. H grande nmero de 
formas altamente caractersticas, alm da linha reta. Deveremos presumir que haja um dispositivo anatmico especial, ou melhor, grande nmero 
de dispositivos, para cada forma, uma vez que cada uma pode ser projetada sbre muitas partes diferentes da retina? 
110 
Depois desta discusso, no ser necessrio gastar muito tempo com o conceito da configurao 
experimentada ou forma prpriamente dita na dimenso do tempo. No caso de melodias, de ritmos, de 
movimentos vistos, etc, teramos simplesmente que repetir o que j foi dito no caso de formas simultneamente 
oferecidas. A forma de um motivo musical comea em determinado ponto e termina em outro; ento pode-se 
seguir outro motivo. Em determinado caso, porm, no h uma forma experimentada que se estenda, por 
exemplo, do segundo tom da primeira frase musical ao terceiro tom da frase seguinte. Entre as duas frases, fica 
o chamado intervalo morto que corresponde, como tempo,  mera extenso ou terreno fora de uma forma 
visual. Ainda, quando, em uma cmara escura um ponto luminoso em movimento descreve a trajetria da Fig. 6, 
vemos certas formas de movimento, tais como 1, II e III. No vemos, porm, outras formas, como, por exemplo, 
uma forma que corresponde a uma frao de 1, a extenso de horizonte seguinte e uma frao de II, 
conjuntamente. Mais uma vez, a forma experimentada concilia-se com a organizao de conjuntos e 
subconjuntos correspondentes. 
Como a forma  um atributo de entidades isoladas, tdas as nossas observaes anteriores, contra a 
explicao pelo conhecimento adquirido no passado, se aplicam aqui como no caso daquelas prprias 
entidades. To arraigados, porm, esto os pontos de vista empricos, que ser conveniente mencionar mais 
alguns fatos relacionados com ste assunto. 
1. Qual o efeito prtico de certas formas sbre nossa experincia visual em percepes subseqentes? 
Desenhos como os da Fig. 11 e 
Fic. xi 
Fig. 12 contm muitas combinaes de linhas geomtricas que, quando apresentadas szinhas, nos fariam ver 
formas diferentes das que realmente vemos. Assim, em ambas as figuras, o contrno da Fig. 13 est 
geomtricamente presente. Se, depois tivermos um grande nmero de tais desenhos, ordinriamente vistos de 
certa maneira, mas que, do ponto de vista geomtrico, contm certas figuras menores, o aprendizado com 
respeito ao ltimo mudar a maneira pela qual vemos o primeiro? 
111 
Mais particularmente: sse aprendizado perturbar as figuras maiores, de maneira que as figuras praticadas 
surjam com suas formas especficas? Gottschaldt fz tais experincias.2 Como se admite que a experincia 
passada afeta automticamente a organizao, isto , independentemente de qualquer conhecimento acrca da 
presena dos contornos correspondentes, no foi recomendado aos sujeitos analisar ou procurar as figuras 
praticadas. Os desenhos maiores foram apresentados simplesmente para descrio. Em crca de 90% dos 
casos, trs apresentaes anteriores das figuras menores no afetaram a percepo subseqente dos modelos 
maiores. Quando, com novos sujeitos, o nmero das apresentaes anteriores das figuras maiores foi 
aumentado para 520, o resultado permaneceu o mesmo, tendo sido os desenhos vistos de maneira imutvel em 
95% dos casos. Nem mesmo os poucos casos que apresentaram resultado positivo podem ser explicados por 
aprendizado anterior em si mesmo, porque os sujeitos que, ocasionalmente, viam as formas praticadas nos 
desenhos maiores tinham alguma desconfiana da finalidade da experincia e de fato perguntavam ao 
experimentador se les olhariam formas com que j haviam praticado. Embora no fssem recomendados a fazer 
tal coisa, naturalmente encaravam a prova com uma atitude de perfeita expectativa especfica. Por isso, seus 
resultados positivos no provam que a experincia passada tenha um efeito automtico sbre modelos vistos 
posteriormente. 
Os desenhos maiores de Gottschaldt eram difceis, no sentido de ser a sua organizao muito estvel. Em 
algumas dessas figuras, no podemos realmente ver as figuras menores, embora saibamos no smente que 
elas esto presentes mas at onde esto localizadas. Nenhuma objeo, porm, pode-se basear nessa 
dificuldade das figuras maiores, porque em tal objeo estaria tcitamente admitido que a organizao 
12 PSJChOI. Forsch., 8, 1926. As figuras 11-13 so reproduzidas do trabalho de OOtt.chaldt. 
112 
visual muito estvel  mais forte do que qualquer influncia da prtica. Certamente, no se pode dizer que 
desenhos maiores tais como os da Fig. 12 devem sua organizao estvel a muita prtica pre-experimental na 
vida quotidiana. Os formatos que vemos neste modlo no so, de modo algum, mais conhecidos que os da 
Fig. 13. Quem afirmar que a experincia passada exerce uma influncia automtica sbre a percepo 
subseqente ter que apoiar a teoria com experincias prprias. Se existir tal influncia, deve-se restringir a 
situaes particulares. 
2. Admitiremos, naturalmente, que determinadas entidades especficas, com formas, prontamente adquirem 
significao. Quando isso acontece, porm, essas entidades se apresentam primeiro, e as significaes se 
prendem mais tarde a tais coisas dotadas de forma. No tenho conhecimento de quaisquer fatos que mostrem 
que, inversamente, o aprendizado constri coisas e formas.  bem verdade que situaes mal organizadas, em 
que mal chegam a ser indicadas unidades e formas especficas, podem ser muito esclarecidas pelo fato de tais 
entidades serem bem conhecidas. Nesse caso, contudo, a principal questo consiste em saber que fatres 
estabeleceram aquelas entidades na vida anterior. Evidentemente, as condies eram, ento, mais favorveis e, 
provvelmente, o eram do ponto de vista da organizao sensorial. De qualquer maneira, tais observaes 
esto longe de provar que o aprendizado transforma as chamadas sensaes em coisas especficas. O que se 
observa realmente  apenas que a clara organizao experimentada no passado concorre para melhorar uma 
organizao inferior que se apresenta mais tarde. E, repetindo, a prtica prvia anterior no tem tal influncia, 
se a situao presente est organizada, fortemente, de maneira diversa. O nmero 4, por exemplo, tem uma 
forma bem conhecida; quando, porm, a Fig. 10  mostrada a pessoas que no desconfiam da presena do 
nmero,  pouqussimo provvel que o vejam. No lhes ocorrer tal coisa na descrio do desenho. No se 
pode objetar que, no passado, jamais vimos o algarismo 4 em um ambiente to pouco comum. Se a prtica tem 
influncia automtica, essa influncia deveria ser demonstrvel precisamente em tais situaes. Alm disso, 
no  de modo algum o carter pouco comum do ambiente que nos impede de ver 4 na Fig. 10. Na Fig. 14, o 4  
visto imediatamente, embora o ambiente que rodeia o algarismo no seja mais comum que o da Fig. 10. Por que 
motivo, ento, le  visto agora? Evidentemente, na Fig. 14, as linhas ajuntadas no se confundem com as 
vrias partes do algarismo, de maneira que ste objeto seja dissolvido. Na Fig. 10 as condies de organizao 
so de molde a favorecer a formao de outros objetos.13 Na Fig. 14, um ambiente igualmente estranho no 
contm tais condies e, portanto, o algarismo permanece como uma coisa visual isolada. 
13 Cf. particularmente a condio mencionada no Captulo V (pg. 85). 
113 
Fio. iz 
Fio. 13 
Darei mais alguns exemplos em que objetos bem conhecidos e suas formas sero destrudos porque a 
organizao forma entidades maiores. A Fig. 15 pode ser descrita de vrias maneiras, mas ningum, espon EE3 
FIG. 15 
tneamente, mencionar letra E em tal descrio. Ao mesmo tempo, essa letra est geomtricamente presente, e 
o objeto que  visto de fato  menos conhecido do que a letra. A Fig. 16 pode ser vista durante meses como 
ornamento, sem que seja jamais suspeitada a presena de dois HH. Do mesmo modo, em condies normais, a 
letra K no existe, visualmente, na Fig. 17. Naturalmente, neste ponto, o leitor j no est observando em 
condies normais e, sim, procurando letras, na atitude analtica de que tratamos no Captulo V (pg. 99). Peo-
lhe, portanto, para mostrar a Fig. 16 ou a Fig. 17 a amigos 
mais desprevenidos e perguntar-lhes o que esto vendo. No acredito que sua enorme experincia com as 
letras influencie o resultado em grau aprecivel. 
3. No faltar, ainda, quem se mostre inclinado a admitir que a forma visual vem de experincias tcteis ou 
motoras. Essa tese  to inaceitvel quanto a interpretao correspondente no caso da organizao em si 
mesma. A forma  uma caracterstica que as experincias tm ou deixam de ter.  irredutvel a outros atributos. 
Assim, se 
entidades visuais parecem dotadas de forma smente, porque temos outras experincias ao mesmo tempo, 
essas outras experincias devem 
ter a forma em questo. Os fatos visuais podem ser capazes de absorver caractersticas que no pertencem ao 
equipamento original dos campos visuais. Neste caso, contudo, tais caractersticas emprestadas devem ser 
produtos naturais dos campos de onde procedem. Em conseqncia, a hiptese em discusso limita-se a 
transferir o problema da forma de um campo sensorial para outro. Evidentemente, em algum lugar, deve ser 
tratado como tal, sem mais transferncia. sse raciocnio aplica-se tambm s nossas sensaes dos 
movimentos oculares, que, repetidamente, tm sido mencionados a sse respeito. Se a forma visual  uma 
questo de movimentos oculares, as experincias cinestticas em jgo devem ser formadas no sentido em que 
as entidades visuais o so. Uma vez esclarecido ste ponto, ter que ser admitido que tal hiptese no 
representa um progresso cientfico. Podemos admitir igualmente que a forma  um atributo visual. 
4. O melhor argumento contra qualquer teoria emprica neste campo  o que se segue. Admitimos sem 
relutncia que partes de um campo visual podem causar a reestruturao de experincias que estiveram 
prviamente associadas a tais partes. Contudo, indagamos, ento, quais os fatres visuais particulares 
responsveis pela reestruturao em cada caso. A resposta  que, em noventa e nove por cento dos casos, a 
reestruturao ocorre porque surge no campo uma entidade particular isolada com forma igualmente especfica. 
Em outras palavras,  essa entidade dotada de forma que est associada a outros fatos e pode, portanto, 
evocar tais fatos. Isto significa que, se a organizao estivesse ausente, de maneira que a reestruturao s 
pudesse ser causada pela cr e brilho de sensaes, a experincia visual, em via de regra, no ficaria 
suficientemente caracterizada para fazer surgir uma recordao especfica. Quando se refere  influncia 
automtica da expe Fia 
x 
Fic. i7 
Fia. iG 
114 
115 
rincia passada sbre a viso presente, muita gente  tentada a presumir que essa idia tambm pode ser aplicada aos 
fenmenos que aqui tm sido interpretados como efeitos da organizao sensorial. Segundo sse ponto de vista, um campo 
visual pareceria conter coisas dotadas de forma, porque certas experincias prvias foram reestruturadas. Aqules que 
raciocinam dsse modo parecem esquecerse de que, via de regra, a reestruturao  causada exatamente por tais coisas 
dotadas de forma. No percebem perfeitamente que, se seu ponto de vista fsse aplicado a rigor, o campo visual teria de 
ser considerado como inteiramente destitudo de tais coisas. Seria fcil dizer: isto ou aquilo  assim porque certas coisas 
aconteceram na vida anterior. Agora, porm, precisamos afirmaes mais claras e mais especficas. Ningum negar que a 
reestruturao desempenha um papel de grande importncia na vida mental; isto, porm, s pode ocorrer porque o mundo 
sensorial em si mesmo est suficientemente dotado de atributos especficos que deve  organizao. Um mero mosaico de 
sensaes seria incapaz de imprimir  reestruturao as direes especficas corretas. Esta dificuldade com que se 
defronta a interpretao emprica ainda  agravada pelo seguinte fato: de um modo geral, a forma permanece a mesma, 
independentemente da cr, lugar e tamanho da rea onde se encontra a forma. Segundo o ponto de vista emprico, isso 
significa que, apesar das variaes a sse respeito, as mesmas experincias prvias so sempre reestruturadas. Como pode 
isto acontecer, quando, de fato, nada  deixado que possa servir como causa constante para a mesma reestruturao? 
O fato a que acabei de me referir  chamado transposio. Como queria mostrar que a forma jamais pode ser explicada em 
funo das sensaes, Eherenfels atribuiu grande importncia  invariabilidade da forma visual quando so mudados o 
brilho, o matiz, o tamanho e a localizao de um objeto. Na verdade, quando o objeto  levado demasiadamente para longe, 
em direo  periferia do campo, sua forma ser afetada. Alm dsse caso especial, contudo,  enorme a amplitude dentro 
da qual os objetos podem trocar de situao.4 A sse respeito, as formas no tempo atuam de maneira semelhante s 
configuraes no espao: uma melodia, por exemplo, pode ser apresentada em diferentes tons e, no entanto, permanecer a 
mesma. Ehrenfels tinha plena razo ao afirmar que, dessa maneira, a forma espacial e a temporal se apresentavam 
claramente como fenmenos sui generis. le tambm compreendeu, contudo, que devem ficar constantes certas condies 
para que a transposio corresponda ao que a expresso implica. As relaes entre os estmulos envolvidos devem manter-
se aproximada- 
14 No caso dos adultos, deve ser satisfeita mais uma condio para que a transposio no afete determinada forma visual. 
A maior parte dos objetos muda de aparncia quando toma nova orientao no espao e particUlarmente quando virados de 
cabea para baixo. ste fato, que revela uma curiosa anisotropia do campo visual nos adultos, no parece existir nas 
crianas de tenra idade. 
mente as mesmas, quando os prprios estmulos so mudados. Assim, vemos, mais uma vez, que as mesmas condies que 
determinam o isolamento de entidades especficas no espao e no tempo tambm so decisivas para os atributos delas, 
segundo Ehrenf eis.5 
Houve uma ocasio em que o notvel comportamento das Gestalten, particularmente, a invariabilidade de suas formas sob 
as condies de transposio, era, geralmente, considerado como prova da presena de processos mentais superiores (cf. 
pg. 104). De acrdo com a nossa concepo atual, contudo, a organizao sensorial aparece como um fato primrio, 
originado pela dinmica elementar do sistema nervoso. Enquanto a organizao fr considerada uma atividade intelectual, 
no podemos, naturalmente, explicar o papel que a organizao desempenha na Biologia, particularmente na ontogenia. 
Tambm, convm lembrar que Hertz demonstrou a influencia da organizao sbre o comporta. mento de animais que no 
se especializam provvelmente em processos intelectuais. Segundo parece, Lashley foi o primeiro a mostrar a 
transposio nos animais. Tendo sido ensinados a escolher, por exemplo, o mais escuro de dois objetos cinzentos, os 
animais mudam sua reao quando so apresentados dois outros objetos da mesma categoria. Em outras palavras: escolhem 
o objeto que representa a unidade mais escura do nvo par, embora a tonalidade particular de cinzento no tenha sido 
jamais apresentada durante a aprendizagem original. Sem ter conhecimento do trabalho de Lashley, repeti a mesma 
experincia com macacos e galinhas, e tomei precaues especiais para excluir vrias possibilidades de explicao indireta. 
Atualmente, no h mais dvida de que uma galinha, treinada para dentre dois objetos cinzentos, 1 e II, escolher sempre o 
mais escuro, o objeto II, no escolher depois sse objeto, na maioria das experincias, quando lhe forem apresentados o 
mesmo objeto II e outro (mais escuro), o objeto III, escolhendo o tom desconhecido do objeto III. As mesmas experincias 
foram feitas com macacos, referindo-se a escolha ao tamanho e ao matiz dos objetos. Vrios investigadores puderam 
confirmar essas experincias.  de deduzir que os animais reagem a tais pares de objetos como grupos unitrios, cada lado 
dos quais tem um carter particular, que depende de sua posio dentro do par. Assim, ii  o lado mais escuro do primeiro 
par, mas, no nvo par, III assume ste papel. E, como o animal aprendeu a escolher o lado mais escuro do par e no um 
matiz de cinzento mais ou menos definido, tende a evitar o cinzento que escolheu durante o perodo de aprendizagem e a 
escolher o outro nvo matiz do cinzento. No importa presumir se a galinha tem experincia visual. A diferena entre uma 
escolha que depende de uma intensidade luminosa mais ou menos definida e de uma reao baseada 
15 Wertheimer afirma contudo, que nem tdss as relaes entre os estmulos so igualmente importantes a tsse respeito. 
Algumas podem ser modificadas de maneira considervel, sem afetar muito uma determinada forma, ao passo que mesmo 
pequenas alteraes de outras influenciam a forma imediatamente. 
116 
117 
em uma caracterstica determinada em uma unidade-par  a mesma em ambos os casos. Tem-se de admitir que, 
tambm, a frmula estmulo-reao se mostra muito ilusria, uma vez que deixa de lado o fato de que, entre o 
estmulo e a reao, ocorre o processo de organizao, em particular a formao de unidades-grupo em que as 
partes adquirem novas caractersticas. 
A fim de provar que a concepo da auto-distribuio dinmica explica a transposio, trataremos de mostrar, 
agora, que a transposio ocorre em sistemas fsicos. Se tdas as fras de uma determinada distribuio 
dinmica se equilibram entre si, seu equilbrio evidentemente no ser perturbado se a intensidade de tdas as 
fras diminui ou aumenta na mesma proporo. Em conseqncia, sses estados dinmicos so, em grande 
parte, independentes dos fatos absolutos que existem em suas vrias partes. Suponhamos, por exemplo, que a 
auto- distribuio  a de uma corrente que passa por um condutor de certo formato, tal como um eletrlito que 
enche uma vasilha dste formato. A intensidade da corrente no tem influncia sbre sua distribuio. 
Tambm, se, em lugar de iontes como Na e C1, K e Br, ou outros quaisquer, transportarem as cargas eltricas, a 
distribuio da corrente no se modifica. Suponhamos, ainda, o fenmeno eletromotor que surge quando esto 
em contacto duas solues (1 e II) de concentraes inicas diferentes. Tal fenmeno depende da relao das 
concentraes de iontes, ao passo que as concentraes absolutas no tm importncia. Assim, por exemplo, 
se a II soluo, com uma concentrao de 1/20 n,  o lado eletropositivo do par, ao passo que 1, com uma 
concentrao, por exemplo, de , em um nvo par com a concentrao de 1/20 n (II) e 1/100 n (III), a nova 
soluo, III, torna-se o lado eletropositivo. Em outras palavras: ser o lado eletropositivo de tal sistema fsico  
uma propriedade que uma parte do sistema deve  sua posio no sistema em seu conjunto. A sse respeito, 
no h diferena entre o exemplo eletroqumico e o caso de duas tonalidades de cinzento, uma das quais  o 
lado mais escuro do par. 
A forma , provvelmente, o atributo mais importante das coisas isoladas, mas outras caractersticas esto 
estreitamente relacionadas com a presena ou a ausncia da forma visual. Nas Figs. 8 e 9, observamos uma 
mudana de forma. A princpio, via-se uma cruz ou estria e depois a outra. Se tais mudanas forem 
observadas cuidadosamente, ser encontrada outra mudana para acompanhar o aparecimento e 
desaparecimento das duas formas. Quando  vista a cruz mais fina, a rea dessa cruz tem um carter de solidez 
ou substancialidade; a cruz tem a densidade de uma coisa, ao passo que o ambiente em trno dela parece 
relativamente vazio ou frouxo. O contrrio se d quando aparece a outra cruz. Ento, a cruz parece slida e 
substancial, ao passo que os ngulos estreitos, que passaram a fazer parte do segundo plano, ficam frouxos ou 
vazios. Como, portanto, uma rea torna-se slida quando tem forma e , nesse sentido, uma figura, Rubin 
118 
deu  qualidade da solidez a denominao de carter de figura e chama a frouxido do ambiente de carter 
do fundo. Esta expresso  bem apropriada, porque a figura geralmente alonga-se um tanto no espao. O 
ambiente informe  localizado mais para trs e, na verdade, parece estender-se atrs da figura como um plano 
homogneo em que ela se encontre, O cu acima das casas (c/. pg. 109) tem sse carter de um fundo que se 
estende por trs das casas, que so as figuras. 
Pode-se dizer que sse carter de solidez a que acabei de me referir ocorre apenas como um atributo de coisas 
isoladas. Pertence, evidentemente,  classe geral das qualidades de Ehrenfels. Alguns psiclogos podero 
inclinar-se a atribuir sse carter a experincias tcteis que adquirimos ao manejar os objetos fsicos, mas no 
h nenhum motivo particular que nos impea de consider-lo um atributo das coisas visuais em si mesmas, Na 
verdade, pode le pertencer aos constituintes primrios da significao que as expresses coisa ou 
substncia tm na vida comum. Seja como fr, a figura e o fundo mostram-se de maneira muito diferente no 
campo visual. A constncia da cr, por exemplo, mostra-se mais forte para a figura do que para o futuro. Tem-
se verificado que a intensidade de uma mancha colorida  maior na rea de uma figura que dentro de um fundo 
da mesma cr objetiva. Por outro lado, as ps-imagens so mais vivas quando observadas sbre uma figura do 
que em um simples fundo. 
Depois destas consideraes, sero prontamente compreendidas algumas outras afirmaes que, sem stes 
esclarecimentos, talvez fssem consideradas mera filosofia. Nas experincias com animais, quanto ao lado 
escuro de um par, verificou-se ser caracterstica de um objeto sua incluso em uma entidade mais ampla, a 
unidade-par visual. A mesma referncia a conjuntos maiores est implcita em muitas expresses que usamos 
constantemente como expresses banais. No compreendemos, em geral, que o sentido de tais palavras 
ultrapassa os fatos locais, com os quais esto relacionadas tais palavras. De uma grande lista, darei apenas os 
seguintes exemplos: a palavra alem Rand (em ingls brink ou edge, orla, fmbria)  uma delas; outra  
Anfang (como), Ende e Schluss (fim e fechado), Stck e Teu (pedao e parte), Rest 
(repouso e resto); e tambm Loch (buraco) e Strung (perturbao). Ver-se- de pronto que um 
lugar pode parecer como um buraco, smente quando constitui uma interrupo de uma entidade maior, 
cujas outras partes tm o carter de figura. Mutatis mutandis, o mesmo prevalece para o sentido de 
perturbao. No h, de modo algum, necessidade de restringir a lista aos casos em que as palavras se 
aplicam a fatos sensoriais. No caso dos processos mentais, um acontecimento constitui uma perturbao 
apenas com relao a um conjunto maior e unitrio que le interrompe. Sem essa referncia, a palavra no tem 
sentido. As pessoas familiarizadas com a teoria musical lembrar-se-o que um som s tem o carter tnico 
dentro de um processo musical 
119 
em que le desempenha uma parte especial. O mesmo  verdade com referncia a tom que aponta para alm de si mesmo 
no independentemente, mas como parte de uma estrutura musical mais ampla. 
Casos semelhantes podem ser fcilmente encontrados entre os adjetivos e verbos. Hobi (&o) e o//en 
(aberto), completo e incompleto pertencem a essa categoria, em que o sentido se refere a unidades especficas 
experimentadas, smente s quais tais adjetivos so aplicveis. No campo das palavras que significam acontecimentos e 
atividades temos, por exemplo: partida e como, trmo, trmino e fim, partir e comear, proceder e 
continuar e tambm desviar, dobrar, retardar, etc. Se considerarmos c sentido de tais palavras como hesitar ou 
desviar, verificaremos qu tal sentido pressupe a ocorrncia de processos coerentes mais amplos cujas modificaes so 
designadas por stes trmos. sses processo podem ser melodias ou as atividades de outras pessoas tais como a vemos, ou 
processos mentais que se desenvolvem em uma pessoa De um modo essencial, as significaes de tais palavras permaneceu 
as mesmas em todos os setores da experincia, pois os principai aspectos da organizao no se restringem a qualquer 
campo especia 
BIBLIOGRAFIA 
W. Khler: Die physischen Gestalten in Ruhe und im 8tationirem Zu tand. 1920. 
W. Khler: Psycol. Forsch., 4, 1924. 
E. Rubin: Visueli wahregenommene Figuren. 1921. 
W. Sander: Ber. . d. 9. Kongress f. ecper. Psyehologie. 1927. 
M. Wertheimer: Gestalt Theory. Social Resectrch, II, 1944. 
M. Wertheimer: Psijchol. Forsch. 4, 1924. 
120 
